Caroline Gouvêa S. Wallner*, texto escrito durante a Pandemia Covid/19.
Nova Edição em 07/2025
Era uma casa sem gente dentro. Cada pessoa no seu cômodo, sem olhar, sem conversar e perceber o outro que estava no mesmo ambiente.
Na aceleração cotidiana e na “ditadura” da produção constante do sucesso o ser humano foi ficando sozinho, isolado no seu próprio mundo, descuidado com seus hábitos, desamparado no seu mundo particular.
Pessoas chegavam do trabalho, cansadas, exaustas e sem tempo para o outro dentro da sua própria casa. Àquele momento de partilha e convivência dentro de casa, não aconteciam, foi crescendo o espaço do isolamento.
Nos restaurantes, parques, ambientes sociais, haviam pessoas, porém distantes uma das outras, cada uma no seu mundo particular do celular. Desconectadas fisicamente, mas “conectadas através de um muro chamado “tela”. A produção e a imagem do sucesso não podem parar! Este discurso era ecoado em todos os ambientes. Lugares, espaços, sem gente dentro!
O tempo ficou líquido, rápido, acelerado como a velocidade da internet, isso era também escutado em todos os cantos: o tempo está passando cada vez mais rápido!” Será? Os vínculos sociais cada vez mais voláteis, imediatos, instantâneos e frágeis. Uma insatisfação constante. Vamos lembrar dos slogans: “a ditadura da felicidade”; “é proibido ficar triste, fracassar, dar pausas, descansar ou desacelerar”.
Esta “ditadura do sucesso” ecoou e refletiu no nível de ansiedade e estresse.
O ser humano foi adoecendo, preso e alienado em si mesmo sem considerar o outro, com e como um tempo para olhar e escutar.
E no meio deste caminho já intenso e acelerado, assim como desconectado apareceu uma doença da ordem viral que determinou às pessoas que ficassem dentro de casa – àquela casa sem gente dentro – com uma redução daquelas atividades da “correria insana focada exclusivamente na produção”. Um tempo para olhar para o outro além de si mesmo. Um tempo para si conectar.
Foi vivenciada por muitos como uma pedra no meio do caminho: um mal-estar, um sofrimento, um tempo “forçado” para pensar na vida?
O que estamos fazendo da, e com a nossa vida? Por que a eminência da morte real causa tanto desconforto?
Talvez porque é algo desconhecido, mesmo se já tivermos vivenciados a experiência da morte em algum momento da nossa vida. Sempre será um momento novo, causa desamparo, muitas vezes ficamos sem recursos psíquicos para nos ajudar, e não conseguimos capturar o registro real da morte para prevenir, de uma forma antecipada, o mal estar gerado na tentativa de evitar o encontro com a dor. E entrar em contato com a dor nos direciona para os nossos espaços internos de vazio e isolamento. Mas para qual espaço cada um seguirá, depende de cada sujeito, e alguns podem entrar em pânico e desespero. O pânico se dá quando o sujeito se encontra, inesperadamente, com a dimensão da falta e se vê sem recursos simbólicos internos psíquicos. Ele representa apenas uma das várias possibilidades de o sujeito se relacionar com o seu próprio desamparo, em um esforço extremo de pré-simbolização, pois antecipa a experiência do morrer – como representação imaginária da entrada na própria morte.
Freud (1926/1975d) situa o desamparo muito além de uma condição acidental e traumática ou como regressão a um estado primitivo de insuficiência psicomotora. Para ele, o desamparo diz respeito a uma fundamental falta de garantias para o funcionamento do aparelho psíquico, pois este é incapaz de promover uma apreensão simbólica definitiva para questões fundamentais do sujeito, como a própria morte, o destino, etc. Na própria ordem simbólica, há algo que é frágil, mas que, paradoxalmente, se abre para o mundo dos possíveis, a partir do qual o sujeito pode se constituir. Apesar dessa lacuna, a lei simbólica pode se exercer de maneira a atender as condições mínimas necessárias ao bem-estar do sujeito. Pensamos que, no pânico, devido ao desamparo no qual o sujeito está submerso, essa fragilidade toma proporções excessivas que, por isso mesmo, o deixa desamparado.
A forma de lidar com o mal-estar é individual e particular para cada pessoa. Cada um acionará mecanismos de defesa psíquicos conforme sua história de vida, a sua dinâmica de relacionamento com o mundo interno e externo, somado com o modo particular de funcionar.
Freud conceituou o sintoma escutando as queixas de suas pacientes. Era um olhar médico, curioso. Concluiu que o sintoma não era sinal de uma doença, e sim, a forma de expressão particular de um conflito psíquico. O sintoma ganhou o estatuto de formação do inconsciente. Como uma mensagem a ser decifrada, um sinal que pode ser interpretado, renomeado, simbolizado e até “curado” no sentido da transformação relacional ( o eu e o outro). O sintoma é algo que se repete e que muitas vezes a pessoa não consegue sair dele sozinha, queixa-se de algo causador de sofrimento, porém sente-se ligada a ele, “é mais forte do que eu”. Para Freud, os sintomas têm um sentido e se relacionam diretamente com a vida do sujeito que o produz.
A angústia se manifesta sob a forma de “um medo realístico, o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era julgado real” (Freud, 1926/1980, p. 131). A angústia é a reação a esse perigo e o sintoma é criado para evitar o surgimento do estado de angústia. A formação de sintomas, dessa maneira, põe termo à situação de perigo. A angústia é, portanto, uma reação a uma situação de perigo. A reação de angústia sinaliza a presença de uma situação de perigo, e é para fugir a essa situação de perigo que se criam sintomas. A convicção freudiana é de que os sintomas têm um sentido que pode ser decifrado como as demais formações do inconsciente ( é uma elaboração psíquica e simbólica, cuja forma depende das inscrições psíquicas, ou memória inconsciente, em um sujeito).
O sintoma é expresso através de uma linguagem, pode aparecer no discurso e no corpo, nas ações e, pela interpretação, é possível aproximarmos, evocando assim suas ressonâncias semânticas. O tratamento analítico é, então, orientado para libertar a insistência repetitiva que há no sintoma e a verdade que aí se oculta.
Desde os poetas e filósofos, descobriram que adoecemos pelas palavras, ditas e silenciadas, e que também podemos nos transformar por meio delas. Com o passar do tempo, houve um aprofundamento e desenvolvimento de técnicas com metodologias e legitimou-se um cuidado e manejo de sintomas pela via da palavra que toca o corpo.
A OMS atualiza diariamente o número de casos de doenças e mortes por todas as partes do planeta. Essas pessoas podem ou não desenvolver transtornos ansiosos e depressivos. Não é algo pré-determinado, se isso logo aquilo.
Vamos lembrar do estresse e do isolamento citado no início do texto, também provocados pela “ditadura acelerada da produção”, de forma imediata e sem fracasso?
E chegou na nossa porta uma doença que entrou sem pedir licença, invadiu um espaço e inseriu um tempo de pausa…
Todos fomos convocados a olhar, escutar e perceber o outro dentro da sua própria casa, incluindo todos os outros que também estão inseridos nesta sociedade.
Nós vivemos e nos relacionamos uns com os outros, estamos inseridos numa sociedade.
O nível de ansiedade, estresse e depressão como efeito desta “ditadura do sucesso” também vem trazendo vários prejuízos manifestos em sintomas físicos e psíquicos. E ninguém re-parou. Já estávamos tão isolados, entristecidos, doloridos que ninguém parou para olhar e escutar o barulho de si mesmo, muito menos para o barulho do outro fora da janela. Caetano Veloso, na música Carolina, recitou:
“Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
E só Carolina não viu”
Foi necessário, um estrangeiro entrar, para cada um notar o estanho que já habitava em cada um de nós. Será que precisaremos de mais estrangeiros para cuidarmos da nossa casa?
Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
(…)
Compositores: Almir Eduardo Melke Sater / Renato Teixeira De Oliveira
O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem
* Caroline Gouvêa Silva Wallner é psicóloga clínica com formação continuada em psicanálise e saúde mental há quase 20 anos. É administradora da página do Facebook Psicanálise e Amor. Atende adolescentes e adultos. www.carolinegouvea.com
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Bibliografia citada:
Freud, S. (1975d). Inibições, sintomas e ansiedade. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 20, pp.79-171). Rio de Janeiro:Imago (Trabalho original publicado em 1926).