“Jardim de nós” (knot garden): Um convite à leitura e ao caminhar
Por Caroline Gouvêa S. Wallner
Ao ler a revista do Centro Veneto di Psicoanalisi, especificamente o IX Colóquio de Veneza cujo tema central é “Negação, Ilusão e Esperança. Knot Garden 2026/1 – Depressione mascherata nell’infanzia: l’ADHD e il ritiro autistico come equivalenti depressivi”, a arte e o título imediatamente me convocaram a pensar e escrever. A expressão Knot Garden, traduzida literalmente, evoca um “jardim dos nós”. Contudo, em minha mente, ecoou uma homofonia afetiva na língua portuguesa: um jardim de nós — de laços, de subjetividades entrelaçadas.
Apresentado na introdução da revista, esse conceito faz pleno sentido. O knot garden é uma forma simbólica inspirada na “jardinagem histórica da Grã-Bretanha da era elisabetano. Trata-se de pequenos jardins projetados com canteiros baixos e cadeias de caminhos intrincados que podem ser percorridos continuamente. É uma espécie de labirinto sem um destino final obrigatório, onde o caminhante entrelaça rotas sem nunca perder de vista a variedade de outras alternativas possíveis.”
A referência ao “jardim de nós” que em mim ecoou, pode ter uma razão epistêmica específica nesses estudos clínicos, assim como exatamente descrito: “ao contrário de desenhos estáticos ou joias lapidadas, o jardim exige ser explorado e vivenciado, para além de meramente admirado.” No momento desta escrita, emergiu em mim uma palavra correlata: examinados. Por que ela surgiu? Quem sabe sua necessidade se justifique mais adiante. Caminhemos nesta reconstrução e emaranhado.
A Depressão Mascarada e os Equivalentes Depressivos
Os autores da publicação exploram, por meio de ricas ilustrações e vinhetas clínicas, o tema da Depressão Mascarada na Infância, apontando o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Isolamento (Retiro) Autista como equivalentes depressivos. Para ilustrar o mecanismo de defesa subjacente a essas manifestações, vale evocar a poesia de Bruno Togliolini (Le filastrocche della Melevisione, 2011):
“Ho nascosto quella cosa / in fondo a me / perché se non la vedo / lei non c’è.”
(Eu escondi essa coisa bem no fundo de mim porque, se eu não a vejo, ela não está lá).
Na introdução da edição, Lucia Fattori elucida que o termo “depressão mascarada” tem sido empregado na clínica infantojuvenil para indicar a ausência do estado depressivo explícito clássico — tal como observado no adulto — e a concomitante prevalência de uma variedade de sintomas substitutivos. Esses chamados “equivalentes depressivos” manifestam-se por meio de somatizações, fobias, retraimento em fantasias, condutas de autoestimulação e comportamento hiperativo.
Essa dinâmica ocorre porque a criança pequena ainda não dispõe de recursos simbólicos e introspectivos consolidados para nomear as origens de sua angústia, tampouco possui maturidade linguística para traduzi-la formalmente. Historicamente, como apontou Sigmund Freud em seu célebre ensaio “Luto e Melancolia” (1917), a depressão (ou melancolia) envolve uma perda de natureza inconsciente, em que o sujeito não consegue verbalizar o que foi perdido. Na infância, essa impossibilidade é intensificada pela própria condição do desenvolvimento. Como a criança não consegue verbalizar o sofrimento, ela o atua no corpo ou no comportamento.
Portanto, cabe ao adulto — pais, educadores e cuidadores — apreender a dimensão depressiva subjacente a comportamentos frequentemente rotulados e patologizados apenas como “transtornos perturbadores”.
O Sentimento Depressivo Básico e a Contribuição de Magrini
Na clínica com crianças, devido à ausência de uma estrutura depressiva franca idêntica à do adulto, a psicanálise prefere termos como “sentimento depressivo básico” ou “depressividade”. É esse afeto primordial inconsciente que se expressa nas diferentes e ruidosas condições psicopatológicas cotidianas. Mario Magrini, no artigo de abertura da revista, oferece uma abrangente visão geral sobre essa dinâmica, tecendo uma diferenciação crucial entre afeto e sentimento — distinção que remonta às primeiras formulações freudianas em “O Inconsciente” (1915).
Magrini (2026) adverte que abordar a depressão infantil a partir das rígidas classificações psiquiátricas adultas é um equívoco metodológico, dada a discordância teórica sobre as tipologias nosológicas. O autor pondera:
“O estudo da depressione infantil, assim como todos os estudos temáticos de conceitos psicanalíticos, presta-se a esclarecer as revisões que ocorreram no corpus teórico da psicanálise, ao longo de quase um século de estudos e pesquisas, e a mostrar como estas se correlacionam com diferentes visões da natureza humana e seu desenvolvimento.”
A investigação psicanalítica visa, portanto, decifrar os mecanismos da depressão nos diferentes estágios evolutivos, distinguindo seu valor patológico de sua função maturacional na organização psíquica. Melanie Klein (1935), ao formular o conceito de “Posição Depressiva”, demonstrou que o sentimento depressivo não é apenas uma patologia, mas uma etapa crucial do desenvolvimento normal. Para Klein, a percepção de que o objeto amado e o objeto odiado são a mesma pessoa (a mãe) gera na criança a culpa e o medo de ter destruído esse objeto com sua agressividade. A capacidade de tolerar e reparar essa perda é o que permite a estruturação de um Self integrado.
Quando o ambiente falha em apoiar essa transição, a depressão assume contornos patológicos. A literatura psicanalítica vincula essas manifestações a traumas primários e a estados depressivos maternos precoces. Como bem observou Donald Winnicott em seus estudos sobre o desenvolvimento emocional, a ausência de um “ambiente suficientemente bom” e as falhas na função de sustentação (holding) rompem a continuidade do ser da criança, gerando agonias primitivas. Diante do colapso dessa sustentação ambiental, o TDAH e o isolamento surgem como defesas desesperadas contra a desorganização psíquica.
Características Clínicas e Relacionais: A Escuta do Analista
Compilando as observações epidemiológicas e clínicas discutidas na revista, o quadro da depressividade infantil caracteriza-se por:
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Aspectos emocionais e comportamentais: Expressa-se por meio de irritabilidade, crises de agressividade, hiperatividade defensiva, ansiedade de separação, isolamento social e anedonia (perda do interesse pelo brincar).
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Manifestações psicossomáticas: Queixas frequentes de cefaleia, dores abdominais, distúrbios persistentes do sono (pesadelos, insônia de conciliação) e fadiga crônica. Em crianças menores, observa-se o choro inconsolável e distúrbios alimentares; nas maiores, o declínio do rendimento escolar.
Durante o processo diagnóstico relatado pelos autores, os discursos de pais e professores frequentemente convergem para os seguintes indicadores relacionais:
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Aparência de infelicidade crônica: A criança transparece uma tristeza afetivo-motora marcante, embora raramente saiba nomeá-la ou queixar-se dela conscientemente.
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Retraimento e tédio: Há uma apatia generalizada e uma incapacidade crônica de se engajar ativamente no ambiente.
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Insatisfação permanente: A criança mostra-se resistente ao consolo e ao prazer, afastando-se rapidamente dos objetos ao menor sinal de decepção.
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Regressão e fixação: Tendência a regredir a posturas de passividade oral, acompanhada de condutas autoeróticas repetitivas como forma de autotratamento da angústia.