Fazer e Sentir: entre o robô e o sujeito.
Uma critica a era da utilidade.
04/09/2026
Caroline Gouvêa S. Wallner*
Tenho sentido um incômodo cada vez maior nestes tempos. Atravessa-me a impressão de que uma grande parte das pessoas está capturada pela palavra útil e suas nuances como: utilitarismo, utilidade, funcionalidade, produtivo, prático, efetivo, entre outras que possam ocorrer à mente neste momento, todas interligadas ao aspecto do fazer. E como digerir este incômodo? No meu caso: sentindo e escrevendo.
A imagem que aparece na minha mente neste momento é a de robôs fazendo e executando tarefas sem pensar, apenas obedecendo e cumprindo ordens, copiando e colando. Robôs que seguem um roteiro de planejamento e execução programada. Máquinas que executam, copiam, repetem e podem até ser aprimoradas, mas que necessitam, previamente, de um novo modelo, de um roteiro e de um planejamento — sem isso, não funcionam. Observem as redes “sociais” após o advento das tecnologias digitais. Aliás um nome ótimo para um ambiente que poderia também abraçar o lado humano, incluindo falhas, erros, azedo, doce e amargo, mas essa humanidade que estaria atrelada a palavra “rede social” que remete também a uma construção de apoio vem se perdendo, tanto na realidade quanto na esfera virtual. Este já é outro ponto de incômodo: o “mundo virtual”. Ora ou outra encontramos nesta esfera virtual algumas pessoas que ainda preservam esta humanidade/falhas e o apoio social, portanto não pretendo aqui generalizar, nem tão pouco ter uma ilusão idealizada sobre estes espaços. A proposta é digerir e ampliar a reflexão.
A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado de virtus, que significa força, potência ou virtude. Para a filosofia escolástica, o termo passou a designar aquilo que existe em potência e não em ato — como, por exemplo, a árvore que está virtualmente presente na semente. Será que podemos aplicar esse significado às redes sociais virtuais?
O que penso e sinto — e pensar e sentir já sé algo completamente diferente do que faz um robô — é que estamos diante de uma armadilha que tem um preço e um custo, sobretudo emocional, muito alto. Quando as pessoas passam a acreditar que precisam fazer, funcionar e serem úteis o tempo todo, a ponto de terem de planejar antecipadamente tudo para serem o mais assertivas possível, até mesmo numa roda de conversa entre os amigos, estamos diante de uma armadilha onde a fantasia de onipotência se apresenta. E os desdobramentos do mecanismo da onipotência são conhecidos como arrogância, controle, manipulação, culpa excessiva, punição, ansiedade persecutória e cisão com a realidade. Este mecanismo nasce para proteger o ego da fragilidade e pode gerar um aprisionamento psíquico severo.
Observo este movimento, tanto interno como externamente, e a imagem que me acorre é a de um ambiente frio, onde as pessoas ficam capturadas por esse modo utilitário em que este sistema arcaico capturado pela utilidade envolve uma troca — muitas vezes, troca de serviços esvaindo entre os dedos algo como a espontaneidade, criatividade, amor e gratidão. Aliás, esses, para mim são bem quentinhos.
As pessoas estão adoecendo, enrijecendo, tornando-se frias consigo e com os outros; o tempo para construção, digestão e elaboração tornou-se inimigo e, o que é pior, isso vem se “naturalizando” — o estranho é o quentinho. O que é o quentinho? Lembrei daquela brincadeira: quente, frio, morno — quanto mais perto de algo a ser encontrado, mais quente. E é exatamente isto o que quero dizer: estar perto de si é permitir-se sentir, pensar fora de um padrão atrofiado e congelado e, ao mesmo tempo, dentro de si — autorizar-se ir além de um modelo pronto e organizado (vestido de potência). Se não sou potente, logo sou fraco, vulnerável e impotente?
Proponho agora uma discussão que pode ser interpretada e internalizada de forma inversa: a potência, o poder, o controle, a organização, o planejamento, a força, podem ser interpretadas como quente, assim como os poderes dos super-heróis, seguindo essa lógica o frio estaria ao lado da impotência, da fraqueza, da inutilidade, do sofrimento. Será isso mesmo? Difícil e confuso pensar em tudo isso, também concordo. Mas entrar em contato com esta dificuldade e confusão é o que ampliará nossa capacidade para pensar, logo sairemos do modo robotizado.
Sabe quem provoca este pêndulo de apenas dois polos — frio ou quente; potência ou impotência; real ou virtual; dentro ou fora; oito ou oitenta, forte ou fraco? Pensemos: – precisamos apenas destes dois polos, ou será que outras nuances podem coexistir ao mesmo tempo sem que uma exclua a outra, desenvolvendo uma capacidade de tolerar a ambivalência?
Você, em algum momento da vida, já tentou experimentar sentir o que está fazendo agora, neste exato momento? Quantas vezes você se permitiu uma pausa no que está fazendo para sentir o que faz? E, depois de sentir, você consegue pensar e refletir sobre isso? Pensar não como alguém pensaria, ou como já se pensou antes na tentativa de se enquadrar num estereótipo, mas de uma forma autêntica, no seu próprio idioma.
Aliás, qual é o seu idioma — você já se perguntou? Não me refiro ao idioma/linguagem literal, mas àquela forma muito particular e subjetiva que só você pode ser, existir, pensar e falar. Estou falando de quem você é.
Parece que a autenticidade vem se perdendo, ficando congelada, atrofiada.
Para tudo o que se faz, parece haver uma regra: preparar antecipadamente o que falar até numa conversa entre amigos e familiares, tornou-se quase instituído que é necessário ter um roteiro, um planejamento, para gerar engajamento, sustentar uma imagem idealizada e atingir os resultados esperados, com base em uma orientação recebida. E, por falar nisso, hoje temos “mentores” que prestam justamente esse serviço. A palavra mentor e, por consequência, mentoria (mentoring) têm origem na mitologia grega, mais especificamente na obra clássica A Odisseia, de Homero. Quando Odisseu (Ulisses) partiu para lutar na Guerra de Troia, confiou ao seu velho amigo Mentor a tarefa de proteger sua casa, administrar seus bens e educar seu jovem filho, Telêmaco. Em vários momentos da narrativa, a deusa da sabedoria, Atena, assume a forma física de Mentor para guiar e aconselhar Telêmaco em momentos decisivos de sua jornada e de seu amadurecimento.
O nome grego Méntōr passou a ser incorporado por diversos idiomas — reforçado pelo latim — como um substantivo comum, para designar um conselheiro sábio, confiável, protetor e guia para alguém mais jovem ou menos experiente.
Contudo, este lugar pode facilmente se vestir de um funcionamento de onipotência, no qual existe apenas um sabedor: o mentor. O outro não existe dentro desse saber. O que pode acontecer nessa relação? Quem recebe essa soberana orientação pode atrofiar-se, deixando de existir como pessoa e com a sua subjetividade. Voltamos à equivalência: eu sei — você obedece, o eu como sujeito subjetivo não existo. E, se aquele que obedece não atingir os resultados que o “mentor todo-sabedor “orientou, de quem será a culpa? Jamais do Mestre. Não sei se eu ajudo ou atrapalho, mas internamente esta relação já está acontecendo no funcionamento psíquico e, portanto, faz todo sentido, pela via de uma identificação projetiva, fazer escolhas de formas de relacionamento neste mesmo formato.
Como entraria nesta equação a liberdade de pensar, sentir, criar, associar de forma livre e autêntica — pensar e dizer para além desse modelo pronto exibido pelo grande Mestre todo sabedor que internamente também habita dentro de nós?
Aqueles que criam de forma livre e espontânea podem, num primeiro momento, ser julgados, rejeitados, ridicularizados, internamente e externamente, e até considerados mentalmente instáveis em sua época por desafiarem os padrões estéticos, modelos de estereótipos e sociais vigentes.
Vale lembrar que várias pessoas foram e são atacadas, julgadas por apresentar algo novo, inovador, diferente e imprevisto. Posso citar aqui vários nomes que hoje são amplamente reconhecidos, mas que, na época em que se afastaram de um modelo ortodoxo, foram rotulados de loucos. Alguns deles: Sigmund Freud, Picasso, Vincent Van Gogh, Camille Claudel, Leonardo da Vinci, Galileu Galilei, Albert Einstein, entre outros.
Diante disso, termino com uma pergunta: o que fazer com a nossa criatividade, o nosso sentimento, a autenticidade e o pensamento autoral? Estar fora e estar dentro, frio e quente, ser e não ser — eis a questão.