O tempo em análise: notas sobre a espera, o sintoma e a transformação psíquica.
Caroline Gouvêa S. Wallner*
18/08/2026
Muitos pacientes que chegam à análise trazem, de forma implícita — e às vezes explicitamente verbalizada — a expectativa de uma melhora rápida e significativa de seus sintomas. Essa expectativa não é apenas sobre o sofrimento em si, mas sobre o tempo: o desejo de que ele seja encurtado, acelerado, domado.
É compreensível que se chegue ao tratamento com uma ideia prévia de “cura”, especialmente quando se trata de algo que produz dor e limitações na vida psíquica. No entanto, no percurso analítico, essa concepção vai sendo progressivamente desfeita, na medida em que se revela ancorada em aspectos idealizados e onipotentes do funcionamento mental.
Essa dimensão onipotente, quando pouco questionada, tende a operar como obstáculo à ampliação da capacidade de pensar — no sentido não apenas intelectual, mas sobretudo emocional. Ela restringe a possibilidade de elaboração, aprisionando o sujeito em uma lógica de exigência de resultado, na qual o sofrimento passa a ser vivido também como falha de progresso. Nesse movimento, intensificam-se os mecanismos de defesa e, consequentemente, a ansiedade.
Surge então uma questão central: de que “melhora” estamos falando?
“A premissa de que “mudar é diferente de melhorar”, especialmente sob a ótica da psicanálise (incluindo influências de Christopher Bollas), foca na transformação genuína do sujeito em vez de apenas uma adaptação superficial a padrões de comportamento ditos “melhores”.
Talvez seja necessário diferenciar, desde o início, mudar de melhorar. A mudança, na perspectiva psicanalítica, não coincide necessariamente com uma adaptação a padrões considerados mais funcionais ou socialmente desejáveis. Como sugere Christopher Bollas, a experiência analítica não visa produzir um sujeito ajustado a um ideal, mas permitir o acesso a uma transformação mais profunda, na qual o self possa aproximar-se de seu “idioma próprio”, menos alienado das suas formas singulares de ser.
Na clínica, observa-se que o trabalho analítico frequentemente desloca o sujeito da lógica da melhora para a lógica da transformação.
Se considerarmos o funcionamento psíquico a partir das contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, podemos pensar em diferentes modos de organização da mente, marcados por oscilações entre posições mais integradas e outras mais primárias. Nessas últimas, predominam defesas mais arcaicas, marcadas por cisões, idealizações e dificuldades de simbolização.
Nesses casos, o processo analítico exige a construção gradual de uma “reserva psíquica” — isto é, uma capacidade interna de sustentar estados emocionais sem evacuação imediata em ação ou em repetição. Trata-se de desenvolver uma mente capaz de suportar a experiência emocional sem se ver compelida a eliminá-la rapidamente.
Essa oscilação entre modos de funcionamento pode ser vivida, muitas vezes, como uma espécie de “montanha-russa” psíquica: momentos de maior integração seguidos por regressões a estados mais primitivos. Não se trata de um desvio do processo, mas do próprio modo como o psiquismo se reorganiza ao entrar em contato com conteúdos até então não simbolizados.
Um dos impasses frequentes nesse percurso está relacionado à dificuldade de elaboração da perda. A recusa do luto — e, com ele, da castração psíquica — impede o reconhecimento dos limites estruturais da experiência humana. Aceitar a perda implica suportar a insuficiência, a incompletude e a ausência de garantias narcísicas de plenitude.
Nesse sentido, evitar o trabalho de luto pode levar a um retorno defensivo a posições mais onipotentes, nas quais o sofrimento é negado ou evacuado, e a alteridade do outro é reduzida à extensão do próprio eu.
Donald Winnicott propõe que um dos sinais de amadurecimento emocional é justamente a capacidade de sustentar estados depressivos não patológicos, tem como ponto de referência a conquista da capacidade para deprimir-se. Para o autor, a capacidade de sentir-se deprimido, num sentido não patológico, é uma prova de que o indivíduo amadureceu o suficiente para se sentir responsável, empático no sentido de sentir com o outro, e capaz de integrar “bondade” e “maldade” dentro de si mesmo. Quando entristecemos, entramos em contato com o luto natural da perda, da incompletude, da insuficiência, impotência, intolerância, incapacidade, e podemos, enfim sair desta parte onipotente da mente, a qual gera mais ansiedade, dor, cobrança, distorções entre pensamento imaginário e realidade. Essa capacidade de entristecer não se refere a um adoecimento, mas à possibilidade de integrar amor e agressividade, reconhecimento e perda, dentro de uma mesma configuração psíquica.
Winnicott associa a depressão saudável ao desenvolvimento da capacidade de se importar com o bem-estar do outro e de assumir responsabilidade pela sua própria agressividade, indica que o indivíduo atingiu um nível de integração psíquica onde consegue lidar com sentimentos complexos, incluindo a culpa, o arrependimento e a responsabilidade por seus impulsos destrutivos (frequentemente ligados a uma fase de transição entre a “crueldade” primitiva e o “preocupar-se”. Significa que o indivíduo é capaz de suportar a tristeza e a perda, reconhecendo o objeto (o outro) como separado e valioso, em vez de recorrer a defesas maníacas para negar a dor ou a própria destrutividade.
A psicanalista Melanie Klein nomeia a “posição depressiva” e ela não deve ser compreendida, também, como um estado patológico, mas como uma conquista do desenvolvimento emocional. Trata-se da capacidade de reconhecer o objeto como total, e não mais fragmentado, o que implica também a experiência de culpa, reparação e responsabilidade psíquica.
Melanie Klein, no texto de 1940, O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos:” a posição depressiva é explorada com foco nas questões do luto. Para Klein, o luto é um processo de aprofundamento da relação do sujeito com seu mundo interno, embora no início produza a vivência de caos interior e aniquilamento.”
Do ponto de vista clínico, observa-se que muitos impasses na análise decorrem da dificuldade em sustentar esse tempo depressivo da mente — um tempo que não é produtivo no sentido imediato, mas que é profundamente transformador.
A psicanálise, nesse sentido, não tem como objetivo produzir um sujeito “melhorado”, mas favorecer a passagem de uma posição de repetição inconsciente para uma posição de maior possibilidade de elaboração subjetiva.
Como afirma Thomas Ogden, analista e analisando não existem como entidades separadas, mas se constituem mutuamente na experiência analítica. O processo não ocorre apenas “dentro” de um ou de outro, mas no espaço intersubjetivo que se cria entre ambos.
“O analisando é algo que não existe separado da relação com o analista, e um analista é algo que não existe separado da relação com o analisando”. (Ogden,1996ª, p-39)
Esse espaço não é regido pelo tempo cronológico — o tempo do relógio, da urgência e da expectativa de resultado —, mas por um tempo psíquico, marcado por elaborações, interrupções, repetições e transformações muitas vezes imperceptíveis.
Nessa perspectiva, o término da análise não pode ser reduzido ao desaparecimento dos sintomas. Como aponta Juan-David Nasio, os sintomas possuem uma temporalidade própria: podem desaparecer, retornar ou se transformar independentemente de uma linearidade previsível.
Segundo o médico e psicanalista J. D Nasio, o término da análise não significa a suspensão dos sintomas. Ele diz:
“Acrescentamos aqui uma observação importante para a direção da análise nessa fase terminal. Comumente, quando se evoca o término da análise, pensa-se imediatamente na suspensão dos sintomas. Ora, os sintomas parecem ter vida própria, independente da evolução da análise. Alguns desaparecem, surpreendentemente, nas primeiras sessões; outros sintomas se metamorfoseiam no correr do tratamento – uma conversão histérica pode se transformar num sofrimento fóbico – e outros, ainda, desaparecem ou reaparecem muito tempo depois do término da análise. Não é pelo fato de os sintomas desaparecerem que o praticante deve imaginar e esperar um fim próximo do tratamento. Mais do que se prender ao movimento dos sintomas para deduzir o término de uma análise, é muito mais importante para o praticante observar as mudanças da posição subjetiva do analisando. Este toma uma distancia mais serena do analista, depois de ter deixado de dirigir ao Outro da neurose transferencial sua demanda de amor. A maneira de encerrar uma análise atesta a fecundidade ou o malogro dessa análise. A maneira como uma análise se interrompe não apenas determina a sequência pós-analítica como também, e principalmente, o próprio período analítico, da análise inteira.” A Histeria J. D. Nasio. p-87
O que indica uma mudança mais significativa não é a simples eliminação do sintoma, mas a modificação da posição subjetiva do analisando diante de si mesmo, do outro e de seu próprio sofrimento.
Mais do que um tempo de resolução, a análise é um tempo de transformação da relação do sujeito com o próprio tempo.
Para concluir, talvez o maior deslocamento produzido por uma análise não seja o da eliminação do sofrimento, mas o da relação que o sujeito estabelece com aquilo que nele insiste o qual nomeamos de sintoma.
Há sintomas que não desaparecem simplesmente porque não foram feitos para desaparecer de forma imediata. Eles precisam ser atravessados emocionalmente, elaborados, narrados, escutados e sustentados — até que deixem de ocupar o centro da cena psíquica e possam se tornar parte de uma história que já não aprisiona, mas organiza.
O tempo da análise não é o tempo da urgência. É um tempo que se dobra, que retorna, que insiste, que hesita. Um tempo que não obedece ao desejo de aceleração, performance, mas que respeita ao ritmo próprio daquilo que se transforma por dentro.
Como se, aos poucos, o sujeito deixasse de se perguntar: – “quanto falta para melhorar?” – e começasse a se perguntar algo mais essencial: “o que em mim precisa de tempo para existir?”
E talvez seja aí que a análise encontra sua forma mais discreta, bonita e mais profunda de realização: não quando promete respostas, mas quando sustenta a possibilidade de que o tempo, finalmente, deixe de ser um inimigo — e passa a SER um lugar onde a vida psíquica pode acontecer.
E, finalmente, encerro este texto — que esteve há tempos engavetado, mas que nasceu no tempo — como um poema.
Tempo.
C.G.S.W*
Há um tempo que não se apressa.
Ele se impõe.
No início, ele é vivido como obstáculo —
algo que demora demais,
algo que não responde ao desejo de urgência.
Mas na experiência analítica
ele vai deixando de ser inimigo.
O tempo não resolve o que dói.
Ele permite que o sujeito suporte
o que antes precisava ser evitado.
Entre uma sessão e outra,
algo trabalha em silêncio,
mesmo quando nada parece acontecer.
Nem tudo o que é importante aparece como mudança.
Às vezes aparece como sustentar.
Às vezes como não repetir.
Às vezes como conseguir esperar
sem precisar se defender imediatamente da espera.
Há dores que não desaparecem por decisão.
Elas se transformam quando encontram lugar psíquico
para deixar de ocupar tudo.
E talvez seja isso que chamamos de processo:
não a pressa de melhorar,
mas a possibilidade de existir
sem reduzir a experiência ao sintoma.
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*Caroline Gouvêa Silva Wallner – www.carolinegouvea.com
Bibliografia:
KLEIN, M. (1934). Uma contribuição à psicogênese dos estados maníacos depressivos. In: KLEIN, M. Melanie Klein: contribuições à psicanálise. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1981.
KLEIN, M. (1940). O luto e sua relação com os estados maníacos-depressivo. In:KLEIN, M. Melanie Klein: contribuições à psicanálise. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1981
NASIO, J.-D. A Histeria: Teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1991
OGDEN, Thomas H. Os sujeitos da psicanálise. Tradução de Cláudia Berliner. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução de Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre: Artmed, 1983.